Quando aconteceu?





“Quando aconteceu? Não sei...
A gente não percebe o amor
Que se perde aos poucos sem virar carinho
Guardar lá dentro amor não impede
Que ele empedre mesmo crendo-se infinito
Tornar o amor real é expulsá-lo de você
Pra que ele possa ser de alguém
Somos se pudermos ser ainda
Fomos donos do que hoje não há mais
Houve o que houve é o que escondem em vão
Os pensamentos que preferem calar
Se não, irá nos ferir um não...”
(Nando Reis – Quem vai dizer Tchau?)

Hoje logo cedo, como de costume, fui visitar o jardim e reparei que muitas plantas estão cheias de matinhos, penso que por causa das raras, mas fortes chuvas e também por causa do sol que me impede de limpar.


Então enquanto conversava com elas comecei a arrancar os matinhos das violetas e para minha surpresa umas delas está apodrecendo. Creio que não terá como recuperá-la. Mas de imediato me veio a mente a pergunta que sempre tenho ouvido e não tenho sabido responder com precisão.
“Quando aconteceu?”
Nas várias consultas que tenho acompanhado minha mãe sempre me é feita essa pergunta, eu digo algumas coisas que percebi, algumas coisas que vivenciamos juntas só que ao certo só ela saberia dizer. Mas não disse!
Em janeiro de 2014 fizemos uma viagem para o Estado da Bahia, fomos visitar o povoado que ela nasceu. Fizemos a viagem de ônibus e comecei a perceber que quanto mais nos aproximávamos do nosso destino algo sutilmente acontecia. Nas paradas ela entrava nos banheiros e não conseguia voltar e durante o tempo que ficamos lá ela passou a não reconhecer as pessoas mesmo as que ela tinha visto no dia anterior e às vezes ela tinha uma fala de protesto a respeito de algo muito marcante que vivenciou anos atrás.
O fato é que não sei se antes ela deu algum sinal de que algo não estava bem. Também, eu estava tão ocupada com meus afazeres com estudo, com trabalho que mal parava em casa.
Quando vi a plantinha adoecida, esta manhã, e me recordei do processo da minha mãe fiquei pensando no que sempre ouvi dizer “por ai” sobre o tempo que não ganhamos ao lado das pessoas que amamos...
Como tenho dito cultivar o jardim tem me ensinado muito. Cada novo botão de flor que aparece é uma festa, assim também é, e creio que um pouco maior, as festas quando abro a porta do quarto da minha mãe pela manhã para acordá-la e começo a cantar bem desafinado e ela abre os olhos, sorri e responde meu desejo de bom dia dizendo “Bom dia minha filhinha bonitinha gostosinha” rsss
Tem coisas que não tem como recuperar, mas a vida está sempre nos dando uma nova chance de construir uma nova semeadura.





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